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Indaiara: menina-índia que inaugura esperanças

terça-feira, 24 de agosto de 2010, 16h08

Indaiara durante formação de mediadores de leitura, em Duque de Caxias, RJ

As meninas da Baixada Fluminense, região litorânea do Estado do Rio de Janeiro, têm que ser fortes para driblar os problemas que derrubam por inteiro a esperança: violência, gravidez precoce, pouco acesso à cultura, altos índices de evasão escolar, baixo índice de escolaridade dos pais, despreparo para o trabalho, prostituição e exploração infantil e mais, muito mais…

Nesse cenário vulnerável conhecemos Indaiara da Silva, de 16 anos. Seu nome, de origem indígena, significa “metade do dia”. Nome e pele de índio. Olhos bem negros e cabelos cacheados brincando sobre os ombros. Rosto de linhas bem delineadas e perfil torneado. Com uma timidez sedutora de menina que observa com sede de aprender e escuta muito antes de falar. Feminina, graciosa, de poucas palavras e muito brilho nos olhos, de emoção que se dissolve em lágrimas que se formam e quase nunca se revelam. Menina sensível, bonita, com traços da terra morena que a gerou.

Aluna do Colégio Estadual Guadalajara, de Duque de Caxias,  ingressou no projeto Comunidade Educadora aos 12 anos, inicialmente com Agente Pedagógica Ambiental. Logo depois foi seduzida a participar das rodas de leitura através de um Curso de Formação de Mediadores de Leitura e logo se entusiasmou pelo contato com os livros, pelo colorido dos lençóis e pelas almofadas espalhadas quase ao acaso, dando um ar mais jovial à realidade que se apresenta tão rígida.

Indaiara logo após o treinamento para mediadores de leitura, quando todos querem tirar fotos entre os livros

Cada lençol aberto para acolher os livros serviu também para acolher seus sonhos de menina: tão bom se a vida fosse assim, um lençol esticado com almofadas para embalar fantasias e páginas coloridas, para a gente folhear a esperança, os medos, as vontades, tudo o que falta e que sobra no coração. Depois era só fechar um livro e abrir outro. Sem contar as páginas e saboreando cada linha. De tanto ouvir histórias e inaugurar esperanças, Indaiara tornou-se Multiplicadora de Leitura. Depois da formação de mediadores, assumiu o compromisso de transbordar outras vidas esticando lençóis, espalhando almofadas e permitindo as delícias da leitura.

“As crianças são muito carentes, acho que por conta da falta de atenção dos pais mesmo, talvez até pelas condições de vida, muitos nem têm tempo para os filhos. E com as rodas, eles se alegram mais, sentem que têm pessoas que se importam com eles. E é essa alegria que nós levamos pra eles. É tão gratificante, porque assim, de pouquinho em pouquinho, nós podemos mudar a realidade de uma criança através da leitura; eles já vivem numa situação tão ruim nas comunidades que moram, que me sinto na obrigação de mostrar para essas crianças que elas não são obrigadas a seguir o mesmo caminho daquelas pessoas que estão lá no morro, que nós temos algo melhor pra mostrar”, conta Indaiara.

Indaiara foi crescendo. Com o nome que significa “metade do dia” foi despontando por inteiro. Os mesmos traços de índia. O corpo tomou forma de mulher sem perder o frescor de criança. Floresceu para a adolescência em formosura e hoje fala arrumando as palavras e mesclando frases de impacto com a leveza do que diz. Voz suave e baixa, que encanta pela vagarosidade com que pronuncia sem perder o ritmo. Agora com senso crítico apurado, ela seleciona com rigor os livros que vai mediar e usa toda sensibilidade consultando o acervo.

Indaiara atuando como mediadora em uma roda de leitura em escola pública

Nas creches, aprendeu a dar colo e se especializou em receber beijinhos. De todo tipo. Recebe beijo demorado, beijo molhado, beijo de quem nem sabe beijar, beijo de quem está doente por falta de beijo, beijo de quem está com fome de carinho, com fome de segurança, com fome de comida e com tantas outras fomes.

De tanto ser beijada pelos pequenos da creche, Indaiara virou ‘tia’.  Logo ela, que nem sabia como driblar os problemas que derrubam por inteiro a esperança. Logo ela, cujo nome é só “metade do dia”, se vê agora rodeada por vidas pequeninas que vislumbram no prazer da leitura a possibilidade de viver o dia por inteiro, naquilo que um dia digno pode oferecer de melhor: despertar o futuro, cores e brilho, alegrias e abraços. Logo ela que achava que nem sabia de nada…

Com jeito de índia e pele morena, nos olhos dela as lágrimas ainda se escondem. Nos nossos, ao vê-la, elas se multiplicam. Indaiara não é mais metade. Ela é por inteiro. O dia. A vida. A perspectiva de quem só quer ter seus direitos reconhecidos e valorizados.

Sobre o Comunidade Educadora

Indaiara com o amigo Kleber, ambos mediadores de leitura do projeto Comunidade Educadora, em Duque de Caxias

O projeto Comunidade Educadora é implementado pela CARE Brasil em parceria com o Colégio Estadual Guadalajara no município de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro. Com aproximadamente um milhão de habitantes, o município está entre os 10 mais violentos do país, com um alto índice de homicídios de jovens entre 15 e 24 anos e baixos indicadores de qualidade de ensino.

Há quatro anos, o projeto é desenvolvido em comunidades pobres onde atinge uma média de 7.000 crianças, adolescentes e jovens por ano com suas ações de incentivo à leitura, educação ambiental e resgate da memória local. O objetivo principal é fortalecer nas crianças e jovens sua relação com a escola e a comunidade, melhorando tanto os indicadores de rendimento escolar e abandono da escola, quanto sua relação cidadã com a comunidade.

Através de metodologias lúdicas e participativas, o projeto leva o prazer para o processo de aprendizagem, demonstrando que o conhecimento e o saber não são apenas obrigações impostas pela escola, mas descobertas prazerosas que podem melhorar sua vida e da comunidade. O projeto forma jovens como multiplicadores que atuam como voluntários dentro de escolas e creches promovendo atividades de educação ambiental por meio da Tenda ECOnsciência e implementando Rodas de Leitura que asseguram o acesso ao livro, despertam a alegria de ler e contribuem para a formação de cidadãos mais plenos.

O Comunidade Educadora é realizado através do investimento dos parceiros Instituto C&A, Itaú FIES, Lyreco e Teekay Petroyarl.

FOTOS: Kenner de Souza/CARE Brasil


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